quinta-feira, 29 de julho de 2010

Aqui, tudo, lá

transmute
inverta a ordem do processo
mesmo que
a palavra aprisione
e a forma padronize

Distorça

por mais que as bocas
soltem peçonhetas cobras
nos entorpecendo
obrigando nossos corpos a dançarem uma valsa macabra
regida por espíritos sedentos
carne, sangue, terra, voz, sexo, espírito

Tudo mastigado
e devastado

resta-nos apenas
o vômito, a merda




E o vazio.
que pode ser o que nós quisermos

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Digaí o que você quer

Tá querendo saber tudo
Com essa cara que diz nada
Apontando o dedo
Fingindo que tem graça

Finge tudo saber
Sr. Dr. Pasta Pura
Deveria baixar os ouvidos
Quando a mula fala com você

Sempre quer rimar
Amarrando a linguagem, formalizando as ideias,

esquematizando.
Oxe!

Se oriente, deixe de ser demente,
parece até crente, quando pregra pra gente

Ouça

domingo, 30 de maio de 2010

Gran Finale (Último poema de Damário DaCruz)

“Avise aos amigos
que preparo o último verso
A vida
dura menos que um poema
E no alvorecer mais próximo
saio de cena“

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Tratado sobre nicotina

Alguém no canto
Na sarjeta, na janela, na varanda
Apenas parado
Absorto
Deve fumar

Porque o cigarro associa-se
Com a solidão, com o marasmo
E prostra
Acalma, soluciona

Se deus existe
Ele fumou no sétimo dia
E do sopro surgiu a vida humana
Cinzenta, amarga
Mas vale a pena, porra!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Ontem

Deixa partir antes que me parta
Pois tudo torna-se insípido
E da saudade surge a falta
Daquilo que nunca foi vivido

Pois a lembrança mente
Pinta as lágrimas com sorriso
E a gente nem sente
Sempre caímos nisso

E isso fode com tudo.

sábado, 1 de maio de 2010

Vieltchâninov

"...em todos esses rostos que me aparecem de manhã e à noite, está revelada tão ingênua e sinceramente toda a sua auto-admiração, toda a sua insolência simplória, toda a covardia de suas almas miúdas, toda a galinhice de seus mesquinhos corações, que, realmente, isto aqui é o paraíso do hipocondríaco, para falar de verdade, a sério!"

( O Eterno Marido - Dostoiévski)

A ponte

Duas margens
Dois mundos
Um conflito

Sem bandeiras nem símbolos
Meu exército solitário
Que luta pelo amor incondicional
Mesmo sendo bombardeado pelo ódio

Não importa se sois da outra margem
Irrelevante a tua nação
O meu povo são os que sofrem
Mesmo que não entendam porque dói

Um dia meu passo tornar-se-á queda
E à margem estarei das margens
Ainda que meu corpo
Repouse na ponte